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.:: O INESQUECÍVEL DIA EM QUE APAGUEI ::.

Relato do apagamento de um pescador-sub.
 
O que deveria ser 'mais um dia' de mergulho e poderia ter se transformado no 'último'.
 
 
Chamo-me Fred, 28 anos, advogado, moro em Recife (PE) e há vários anos pratico a pesca-submarina em apnéia na região. Inicialmente o fazia em águas relativamente rasas, mas em 1997 conheci pessoas que mergulhavam mais fundo e passei a acompanhá-las, aprimorando bastante minhas técnicas e, por conseguinte, também as capturas.
 
Depois de mais de 04 meses sem mergulhar, no início devido à ausência de oportunidade (tempo + condições favoráveis) e depois em virtude de tratamento odontológico, finalmente consegui programar um mergulho para o feriado do Dia do Trabalhador, 01/05/2006.
 
As condições não eram as melhores e as informações sobre a visibilidade eram contraditórias.
 
Depois de tanto tempo impedido, a única certeza era a vontade de pescar, mas as condições não seriam as melhores. Devido à baixa visibilidade, decidi com meus companheiros de mergulho sair com gasolina suficiente para pescar onde encontrássemos condições propícias. Diante da incerteza, preparei toda a tralha até mesmo para uma pesca 'no azul', incluindo armas grandes, bóias, bungees, atratores e demais apetrechos compatíveis. Apesar de ter organizado o material com antecedência, infelizmente esqueci de levar o meu computador de mergulho, um Suunto D3.
 
Às 05:00, já estava na estrada rumo a Serrambi, praia no litoral sul de Pernambuco distante 70km de Recife, onde fica a nossa embarcação, uma DM-16 com motor de popa Mercury de 60HP. Duda e Alexandre, meus companheiros de mergulho, já estavam lá desde o dia anterior. Antes das 07:00 estávamos navegando e, diante da ausência de transparência nos pontos mais próximos, fomos gradativamente nos afastando do continente.
 
Tinha um ponto muito bom, recém descoberto em minha última saída ao mar para pesca de linha e no qual ainda não tinha mergulhado. Paramos nele. A primeira imersão foi exploratória, apenas para analisar as condições de visibilidade e o potencial do lugar. Por ser o primeiro mergulho, não consegui chegar ao fundo, mas após romper uma camada superficial de aproximadamente 3m de água mais suja, deparei-me com uma água mais limpa. Os 10 a 15m de visibilidade seriam suficientes para a pescaria.
 
Num fundo de areia a 30m da superfície, estavam quase que geometricamente organizados 03 recifes circulares, cuja parte mais "rasa" - se é que assim se pode falar - estava a 28m de profundidade.
 
Não lembro ao certo se foi logo naquele mergulho ou nos posteriores, mas vi bastante vida: barracudas, ciobas, dentões e guarajubas. O potencial do lugar estava confirmado pela sua piscosidade, o que animou a todos nós. Alexandre, como não tinha muita experiência em mergulhos mais profundos, optou por ficar apenas na embarcação.
 
Devido à profundidade e por medida de segurança, optei por usar o arpão amarrado diretamente à bóia ao invés da carretilha. Depois de várias imersões vendo os peixes e sem que eles dessem oportunidade de disparo, finalmente um vermelho-dentão de seus 5kg se aproximou e consegui alvejá-lo quando estava aproximadamente aos 27m. Apesar do tiro não ter sido preciso e fatal, considerei-o suficiente para não deixar o peixe escapar ferido.
 
Com o arpão, ele nadou para a pedra. Tentei impedir, mas como a profundidade era grande e ele estava com bastante força, preferi deixá-lo entocar para não comprometer a minha própria segurança. Larguei o nylon que ligava o arpão a uma bóia Rob Allen de 35L na superfície e voltei à superfície. Dei ciência ao meu dupla, Duda, do disparo e das condições. Ficamos felizes, mas o peixe estava lá em baixo. Na verdade, sequer sabíamos com certeza se ele ainda estaria no arpão e, tampouco, se conseguiríamos embarcá-lo. Deixei minha arma, já sem o arpão, na embarcação.
 
Devido à profundidade em que se encontrava o peixe - que pelo sonar do barco estimei em 29m - ficamos atentos e cada imersão era sincronizada. Se antes do disparo estávamos mais separados, daquele momento em diante a atenção de quem estava na superfície era totalmente dedicada ao acompanhamento da imersão do outro mergulhador. Apesar de não haver contato visual em virtude da camada superficial de água suja até aproximadamente os 3m, as imersões eram todas planejadas.
 
Duda, depois de algumas imersões profundas, às vezes tem problemas e começa a expelir sangue misturado com saliva chegando a tossir algumas vezes e não sabe a origem da secreção, se da traquéia ou dos pulmões. Não consigo precisar ao certo o momento, mas logo após a captura do peixe ele já foi acometido por com tais sintomas. Continuou a fazer imersões, mas por causa do problema, preferia não forçar até a pedra e ficava em profundidades menores.
 
Eu estava mergulhando com meu equipamento habitual e que me era suficiente: uma roupa da Mares de 2,0mm e um cinto de lastro emborrachado com 2,5kg de pastilhas de chumbo.
 
A corda da bóia foi esticada até que ela ficasse o mais perpendicular possível em relação ao fundo, facilitando que as imersões posteriores fossem feitas nas proximidades do local onde estava o arpão e, talvez, o peixe. Fizemos algumas imersões até o local para analisar a posição e situação. Devido à grande suspensão levantada pelos movimentos do peixe, constatei que ele ainda estava muito vivo e, daquele jeito, daria muito trabalho. Para garantir o peixe, evitar a sua fuga, e também para facilitar o procedimento de sua retirada, decidi dar um segundo tiro, numa tentativa de 'apagá-lo'.
 
Depois de planejar a próxima imersão e combinar com Duda, peguei a arma dele e fiz uma nova investida ao fundo. Ao chegar lá, consegui uma boa posição e, sem dar chance para o peixe, fiz um disparo preciso e fatal. Para não forçar e como o arpão estava preso àquela arma pela carretilha, larguei a arma na meia-água durante a subida.
 
Uma vez na superfície, transmiti a Duda o sucesso daquela imersão. Fiz outros mergulhos ainda, contudo, sem conseguir trazer o peixe. Devido ao cansaço, a situação estava ficando mais arriscada. Especialmente para quem não mergulhava há 04 meses.
 
Juntos, optamos por retirar nossos cintos de lastro e amarrá-los a uma segunda âncora que estava no barco, para fazermos dela o nosso 'sputnik' (peso que auxilia o mergulhador na descida e é deixado no fundo para posteriormente ser recolhido por uma corda). Sugeri uma determinada quantidade de braças de corda que julguei ser suficiente para chegar o mais próximo possível da pedra sem que a âncora atingisse o fundo para não ter o risco de enganchar. Alexandre, que estava no barco, ficou como responsável pelo recolhimento do mecanismo após cada descida.
 
Fiz 2 imersões com o Sputnik e o vento mudou, retirando o barco de cima do local onde estava e que era o ideal para o uso daquele equipamento. Decidimos relocar o barco através de uma nova ancorada. Deixamos arpões, cordas e bóias dentro d'água e fomos até o barco para fazê-lo.
 
Fora d’água, conversei com Duda rapidamente sobre procedimentos de emergência em caso de apagamento, tipo retirar a cabeça da água, liberar as vias respiratórias etc. Naquele momento eu havia esquecido que ele fizera um curso de mergulho autônomo bem completo, que incluía primeiros socorros. Detalhe curioso, apesar de mergulhar com Duda há muitos anos e de ser ele meu principal companheiro de mergulho além de sócio na embarcação, simplesmente NUNCA conversáramos sobre o assunto.
 
Uma vez reposicionado o barco, voltamos à água juntamente com o sputnik. Resolvi com Duda, então, trazer a arma dele para a superfície, como de fato fiz. Peguei uma segunda bóia no barco e amarrei-a à corda do arpão, deixando-a também esticada em direção ao fundo (aqui na região, denomina-se 'pé-de-galinha' quando a corda fica na posição vertical, correspondente à menor distância entre a superfície e o leito). Ao invés de apenas um referencial para chegar no fundo o mais próximo possível do peixe, agora eles eram dois, o que ajudava bastante a aproximação.
 
Fiz uma nova imersão. A profundidade do sputnik estava perfeita e a corda esticava há aproximadamente 1m da pedra. Fui até a toca e percebi que seria difícil retirar o peixe sem procedimentos preparatórios prévios. Voltei à tona. Combinei com Duda que soltaria a bóia do primeiro arpão, pois ele estava numa posição que, amarrado à superfície, restringia sua mobilidade.
 
No mergulho seguinte – que pelo combinado ainda não seria o mais difícil – fui com o sputnik até a pedra (aprox. 28m), quando então percebi que o clip a ser solto (daqueles de espinhel) estava aproximadamente 1,5m mais acima (aprox. aos 26,5m). Subi até ele e soltei-o. Como tinha consumido pouco ar – e apesar de assim não ter combinado com Duda – decidi voltar até a pedra (29m) para aproveitar e tentar safar o peixe. Depois de manusear os 02 arpões e o peixe por algum tempo, consegui desvencilha-los da pedra. Esqueci, porém, que a superfície ainda estava MUITO distante. Comecei a subir.
 
Não satisfeito com a irresponsabilidade até ali já cometida e apesar de o peixe já estar sem vida, tentei arrasta-lo até a superfície pelo nylon do segundo arpão. Após poucos metros, percebi o esforço que estava fazendo devido à resistência do peixe na água por estar vindo de lado. Soltei a corda e decidi que, se necessário, faria outra imersão para embarcá-lo. Lembro-me de estar aproximadamente aos 15m ou 20m de profundidade, retornando à superfície já sem segurar a corda do arpão, sentindo intensas contrações abdominais como nunca antes havia sentido.
 
Devia ser aproximadamente meio-dia.
 
Duda vinha acompanhando da superfície o tempo de cada uma das minhas imersões anteriores, as quais não eram muito longas e variavam entre 1’20” e 1’40”. Aquela imersão, contudo, já superava o tempo médio das anteriores e ele estava preocupado. Principalmente por não ter contato visual em virtude da camada superficial de água suja. Devido à demora, chegou a tirar a cabeça da água para ver se eu já havia chegado na superfície em outro lugar. Por não me achar, voltou a cabeça para a água na esperança de ver minha chegada.
 
Sua preocupação era natural. No ano de 1996, ele havia perdido um irmão, um bom pescador-submarino, enquanto treinava apnéia na piscina de casa, sozinho e sem supervisão.
 
Alexandre me viu colocar a cabeça para fora d’água, distante cerca de 15m do barco e 10m de Duda. Pelos relatos dele, já o fiz tendo movimentos involuntários (espasmos) e abaixei a cabeça de volta n’água sem sequer colocar o snorkel na boca.
 
Naquele momento, Duda levantou novamente a cabeça para me procurar, pois a água na superfície não permitiu que ele tivesse me visto ainda, apesar dos apenas 10m que nos separavam. Ao me ver boiando, sem o snorkel e com a cabeça baixa, nadou apressadamente ao meu encontro.
 
Por estar sem cinto de lastro – que havia deixado no sputnik – e estar bastante positivo, fiquei boiando e não afundei. Quando Duda chegou até mim, Alexandre já estava também na água indo ao meu encontro apesar de mais lento por estar sem nadadeiras.
 
Segundo me foi posteriormente relatado pelo próprio Duda, eu já estava desmaiado, pálido, com os olhos virados e lábios roxos. Seu primeiro pensamento foi lembrar do irmão de sangue que perdera 10 anos antes e dizer que não perderia outro, o de consideração, naquele momento.
 
Bastante preocupado e, obviamente, nervoso, retirou minha máscara e começou a me puxar para o barco. Não se lembrou de ver se havia pulsação cardíaca, mas ainda no caminho, começou a fazer respiração boca-a-boca. Mesmo dentro d’água, passou também a tentar fazer massagem cardíaca (RCP). Alexandre chegou e ajudou-o no reboque até a borda do barco. Como estávamos numa DM-16, cuja borda é relativamente alta e não tem plataforma de popa, o meu embarque inconsciente seria difícil. Eles me seguraram do lado de fora do barco enquanto faziam procedimento de emergência.
 
Passado algum tempo por eles estimado em cerca de 3 a 4 minutos desde o momento em que boiei, tossi e cuspi um líquido – água ou saliva – com sangue. Aos poucos, fui recobrando a consciência, sempre tossindo e engasgando, mas com eles ainda me segurando. Recordo-me de, num primeiro momento, estar com as mãos cerradas e fazendo força como se ainda segurasse aquela corda do peixe em direção à superfície.
 
Ainda grogue, minhas primeiras palavras foram: “me solta, me solta”. Eu pensava não ter apagado mas, já ao lado da embarcação e segurado pelos meus dois companheiros, percebi que estava redondamente enganado.
 
Esperei alguns instantes até ficar mais consciente. As contrações sentidas a caminho da superfície eram minha mais recente lembrança, nada mais. Fiz menção de subir no barco e fui questionado se conseguiria subir sozinho, ao que respondi afirmativamente.
 
Após todos embarcados, deitei-me no banco enquanto eram recolhidos a âncora, o material (bóia, arpão etc.) e, claro, o peixe. Eu continuava deitado e ainda cuspi algumas vezes um pouco daquele líquido ensangüentado.
 
Eu estava nauseado, indisposto, mole e com muito frio. Rapidamente recolhido todo o material, sentei-me quando do início do retorno para o continente, distante cerca de 8km em linha reta.
 
Ao chegar em terra, ainda com a roupa de neoprene, desci e me sentei na beira da praia de Serrambi enquanto o equipamento era retirado do barco. Antes mesmo da conclusão do desembarque da tralha, Duda deixou Alexandre fazendo o trabalho e me acompanhou até a casa deles. Entrei quieto e sem cumprimentar ninguém, comportamento este que, depois, soube ter sido estranhado pelos que estavam na varanda pela atipicidade daquela minha conduta.
 
Num chuveiro externo, tirei a roupa de neoprene e tomei um rápido banho de água doce. Comecei, então, a sentir cheiro de fezes. Pensei que algum transeunte pudesse ter defecado naquelas imediações. Tirei apenas o sal, sem nem me ensaboar, e fui para o quarto próximo dali, onde o odor persistia. Ao tirar a sunga, percebi que por ocasião do apagamento o relaxamento muscular me causara incontinência fecal. Voltei para o banheiro para uma completa e necessária higienização.
 
Voltei para o quarto, coloquei uma roupa limpa e me deitei para esperar meus companheiros. Ao chegarem, decidimos voltar imediatamente para Recife. Como eu havia ido sozinho no meu carro, Duda voltou dirigindo e deixou seu carro para que outra pessoa o trouxesse mais tarde. Viemos no carro Duda, o filho dele, Dudinha de 11 anos, e eu. Alexandre ficou lá organizando o restante do material.
 
Durante todo o caminho, eu estava mole, sentia bastante frio e uma dor no peito. Já perto de Recife, liguei para casa e falei com minha esposa. Não contei o acontecido e apenas convidei-a para almoçar. Aquele convite levantou suspeitas, pois habitualmente chego em casa depois de pescarias bastante cansado para qualquer programação. Minha esposa ficou preocupada, perguntou se alguma coisa havia acontecido, mas eu desconversei e encerrei a chamada. Uma nova ligação foi feita apenas para que ela me esperasse na portaria do edifício, em procedimento mais célere.
 
Ao ver Duda conduzindo o meu carro e eu, no local do passageiro com o banco reclinado, ficou preocupada e angustiada. Olhando para o carro seu olhar era de apreensão e, ao entrar, com voz bastante afobada perguntou imediatamente o que tinha acontecido. Novamente desconversamos e fizemos sinais, pois uma criança estava ao lado dela. Ela entendeu e falou sobre outros assuntos. Sua cabeça deveria estar a mil.
 
Passamos na casa de Duda, deixamos o filho dele na portaria e no caminho para um grande hospital particular de Recife é que contamos o acontecido para a minha esposa.
 
Aproximadamente às 15:30, fui atendido na recepção da urgência. O movimento era intenso devido ao final do feriado prolongado e, apesar de ter sido solicitado atendimento por um clínico-geral, a funcionária responsável pela triagem me encaminhou para um neurologista por entender que o meu caso fora de desmaio. Pedi pressa no atendimento, pois continuava mole, com frio, dor no peito e sem conseguir fazer uma inspiração completa e profunda. Era como se meu pulmão ficasse preenchido antes de completar o ciclo respiratório. Eu sentia que havia mais espaço, mas não conseguia enchê-lo. O pedido de prioridade no atendimento foi em vão, pois ainda demorou bastante. Ainda no pré-atendimento ambulatorial feito por enfermeiros, minha pressão arterial estava normal e a temperatura corporal ligeiramente elevada, indicando estado febril.
 
Após resultados normais nos testes de reflexo e motores, o neurologista me encaminhou para análise de um clínico-geral. Se o neurologista já havia demorado, este segundo médico também demorou. Depois de mais 1h de espera, finalmente chegou o responsável pelo meu atendimento. Após o relato e exames clínicos, me foi prescrito um anti-térmico e requisitada radiografia (RX) do tórax, cujo resultado apresentou uma pequena mancha, provavelmente devido à presença de pequena quantidade de água no pulmão ou resíduo de alguma secreção preexistente e que poderia nada ter a ver com o apagamento. Fui então reencaminhado, agora para parecer de um cardiologista.
 
Eugênio, um amigo médico que fora contatado quando ainda estávamos a caminho do hospital, chegou e ficou bastante tempo conosco. Outro amigo médico, este pneumologista, mergulhador e apneísta, também foi contatado. Contudo, como nada de grave lhe foi relatado, ficou de passar no hospital na manhã seguinte antes de ir para o consultório uma vez que ainda não voltara da viagem do feriadão.
 
O cardiologista de plantão solicitou a coleta de enzimas sanguíneas para ver se eu tinha sofrido alguma lesão cardíaca, mas o resultado somente chegaria mais tarde.
 
Durante a bateria de atendimentos, também me foi requisitada uma tomografia computadorizada (TC) do tórax, a ser feita ainda na noite daquele mesmo dia.
 
Os resultados dos exames de sangue chegaram quando já passava das 20:00h. Apesar de nenhuma enzima cardíaca sugerir lesão no coração, meus leucócitos que normalmente deveriam estar entre 8.500 e 10.000 estavam em 15.000, indicando que algo estava anormal. Preventivamente, fui internado para acompanhamento. A tomografia computadorizada somente foi autorizada pela Sul América de madrugada, quando não mais era possível realizá-la, tendo sido agendada para a manhã do dia seguinte.
 
Às 09:00 do dia 02/05/2006, desci para fazer a TC do tórax no próprio hospital. Enquanto estava na sala de exames, o amigo pneumologista chegou e acompanhou as imagens. Em seguida, já de volta ao leito – e somente após quase 18h do meu ingresso no hospital – me foi prescrito oxigênio. Já tinha chegado o resultado de outro leucograma colhido durante a noite, no qual meus leucócitos continuavam subindo e já estavam em mais de 19.000.
 
Era evidente: a água no pulmão já havia desencadeado um processo inflamatório. Diante do quadro e para evitar a evolução para uma infecção e pneumonia, iniciei tratamento com corticóide e antibiótico. À tarde, fiz uma Ressonância Nuclear Magnética (RNM) do crânio para avaliar eventuais lesões e/ou isquemias, a qual não constatou nenhuma anormalidade. O quadro foi controlado e, depois de 02 (duas) noites no hospital, tive alta na manhã do dia 03/05/2006, ainda sem conseguir fazer uma inspiração completa, mas já com significativa melhora.
 
Nos dias que se seguiram, fui novamente ao pneumologista para acompanhamento, fiz novos exames (de sangue e radiográfico). Diante dos resultados satisfatórios, fui liberado pelo médico para todas as atividades, inclusive para mergulhar.
 
Hoje, mais de 30 (trinta) dias após o ocorrido, não pretendo voltar a praticar a pesca-submarina. A admiração pelo mundo subaquático é enorme e subsiste. Ele é fascinante e inesquecível, mas percebo que a prática desportiva segura e agradável caminha paralela à morte. A linha que separa o imenso prazer da fatalidade é muito tênue.
 
Estive em Fernando de Noronha, onde completei o aniversário do primeiro trintídio do meu acidente. Estava com meu Suunto D3 no pulso e fiz algumas incursões em mergulho livre. A ansiedade e tensão eram constantes. Apesar de somente ter dado mergulhos a pequenas profundidades – pouco mais de 10m – não deixei de olhar para o computador em uma única imersão sequer. Acompanhava constantemente não apenas o tempo de apnéia, mas também a profundidade em que estava e me preocupava bastante com a hora de retornar. Senti prazer nos mergulhos, mas simultaneamente, bastante apreensão também.
 
Sei que cometi erros que culminaram com o meu acidente. Sempre me julguei uma pessoa consciente, cautelosa e precavida, tanto que estou aqui para contar a minha história. Entretanto, hoje percebo que não basta apenas conhecer as regras de segurança e segui-las à risca. É necessário, também, se impor limites ao invés de tentar descobri-los. A diferença entre um e outro, pode ser uma vida perdida.
 
No início do mês de abril, faleceu um grande mergulhador de Maceió, Alagoas. Não tive o prazer de conhecê-lo apesar das muitas amizades em comum. Pessoa muito experiente e acostumada ao mergulho, ele pescava em apnéia e fazia esperas a 35m de profundidade. Não se sabe ao certo o que aconteceu, mas o fato é que ele faleceu. Apesar de ser muito querido por todos, aqui deixou precocemente esposa, parentes e amigos, todos saudosos. É isso que pretendo evitar e não desejo para ninguém.
 
Não sei até quando vou conseguir me afastar da pesca-sub, se em caráter definitivo ou não, mas hoje, após 41 dias do meu acidente, ainda estou bem determinado. Não deixarei o mar, pois cresci perto dele e tenho por ele verdadeira fascinação. Todavia, de agora em diante nossa convivência passará a ser muito mais respeitosa. Mesmo sem saber se vou me acostumar a pescar de linha de fundo, corrico, com redes ou espinhel, tenho a certeza de que sempre vou amar o mar, mesmo tendo ele quase ceifado minha vida.
 
Em cada mergulho, nossa vida pode estar em risco. A confiança que depositamos no dupla deve ser relativa. Ele pode nos ajudar, mas antes de qualquer coisa uma fatalidade deve ser evitada ao máximo. Nem todos têm a sorte que tive, de ser salvo. O mergulho sempre deve ser praticado de forma segura, com estrita observância de todas as suas regras. Devemos estabelecer e respeitar nossos limites pessoais. Supera-los é um processo muito cuidadoso e planejado, não uma decisão açodada e momentânea.
 
Agradeço a todos aqueles que, antes do acidente compartilharam comigo seus conhecimentos e muito me ensinaram, àqueles médicos e amigos que durante meu atendimento foram prestativos e solidários bem como aos que, passado o momento de angústia, me deram palavras de incentivo. Aos meus pais, esposa e amigos. E, especialmente, aos meus eternos companheiros de mergulho, responsáveis pelo meu resgate e aos quais devo minha vida.
 
Espero contribuir com o presente relato para que todos os que a ele tiverem acesso tirem algum proveito do meu acidente, estando sempre atentos aos procedimentos de segurança para o aproveitamento correto de todos os momentos de contato com o mundo subaquático.
 
Abraços,
 
 
Frederico Preuss Duarte
Recife – PE - Brasil